[Fiz a Travessia] Troquei o cargo de redatora publicitária para ser celebrante de casamentos

Nome: Ilana Reznik

Antes fazia: Redatora publicitária

Hoje faz: Celebrante de casamentos personalizados. Cria e conduz cerimônias inspiradas na história e na identidade do casal.

Lella Sá: Por que você faz o que você faz hoje?

Ilana Reznik: Por que eu senti como um chamado, como se fosse mesmo a minha missão aqui. Algo inexplicável. Eu era feliz trabalhando com publicidade, mas pensava sempre que queria um trabalho com mais significado. Que um dia ia aparecer alguma coisa grandiosa pra mim. Então, quando duas amigas decidiram se casar e não tinham quem fizesse a cerimônia de casamento delas, eu me ofereci pra fazer. Eram duas mulheres e nenhum celebrante religioso ou civil faria. Nessa hora eu pensei em todos os casamentos que eu já tinha ido e que tinham me frustrado pela mesmice, pela falta de personalidade. Então, achei que poderia criar uma cerimônia diferente pra elas duas, inspirada na história de amor do casal. Escrevi o texto, conduzi a cerimônia e aí senti o chamado. Não foi uma sensação de ter encontrado o trabalho dos meus sonhos, mas de ter sido encontrada por ele, porque realmente, não foi uma coisa planejada, foi absolutamente intuitiva. Era algo com significado, como eu desejava, juntando a escrita, a criatividade e o amor. Os três pilares que sempre me guiaram.

Lella Sá: Por que você decidiu sair da onde estava?

Ilana Reznik: Porque quando eu celebrei o meu primeiro casamento, eu entendi que essa função fazia muito mais sentido pra mim, pra minha personalidade e pros meus ideais, do que a publicidade. Eu gostava de ser redatora publicitária porque eu adorava escrever, mas não agüentava mais o modelo de trabalho de horário comercial, me frustrava ver tanto tempo de trabalho sendo desperdiçado com campanhas nunca aprovadas pelo cliente e o mais importante: eu não tolerava mais trabalhar pra pessoas cuja índole e caráter eram duvidosos. Tive alguns chefes muito inspiradores na vida, mas a maioria me desestimulou completamente com uma gestão ineficiente e com práticas de assedio moral intoleráveis.

Lella Sá: Como fez essa mudança?

Ilana Reznik: Bem, entre a minha primeira experiência como celebrante e o meu pedido de demissão, passaram-se 2 anos e meio. Mas a partir desse primeiríssimo casamento, eu comecei a espalhar pros amigos que estava trabalhando como celebrante. Pedia pra eles divulgarem pra mais amigos, passei a preencher todas as fichas de médicos e hotéis como “Celebrante de casamentos”, me apresentava assim pra qualquer pessoa nova que eu conhecesse. Eu fui internalizando a mudança, de forma muito natural. Fiz um site e alguns casais começaram a aparecer. Como eram poucos ainda, eu conciliava com a vida em agência. Mas cada vez mais a minha cabeça e a minha energia estavam fora. Então, em janeiro de 2013, com 4 casamentos agendados pro ano só, eu pedi demissão pra tocar essa nova vida. Sabia o quanto eu queria que desse certo e sabia que o sucesso seria diretamente proporcional à energia direcionada nessa direção. Eu tinha que arriscar. O que poderia acontecer de pior? Eu não ter casal nenhum interessado e ter que voltar pra agência? Tudo bem, eu correria esse risco. Coloquei uma meta pra mim: conseguir realizar 12 cerimônias neste primeiro ano. Internamente, mesmo sem grande retorno financeiro, eu entenderia que estaria no caminho certo. Fiz 15 cerimônias. Tudo que eu mentalizava acontecia. Nesse sentido, a minha ligação com a espiritualidade foi um suporte muito poderoso para a minha transição. Eu tinha muito mais confiança do que medo. E uma certeza irracional de que se parecia tão especial, não tinha como dar errado.

Lella Sá: Quais foram os maiores desafios que passou para fazer essa transição?

Ilana Reznik: São muitos desafios quando você decide empreender. Muitos. Incontáveis. Vamos lá: em primeiro lugar, eu não sabia se haveria demanda de mercado pra minha nova profissão. Não sabia se haveria muitos casais interessados em ter uma cerimônia de casamento customizada, pessoal e afetuosa. Não sabia como as pessoas à minha volta, amigos e familiares, iam interpretar essa mudança. Se eu teria o respeito deles ou não. Por ser um trabalho original, tinha medo das pessoas acharem que era uma piração total e não algo que eu estava encarando com tanta seriedade. Depois tem os desafios de ter o seu próprio negócio, administrar seu próprio tempo, conseguir trabalhar de casa, conseguir desempenhar funções que eu não tenho tanta aptidão (parte administrativa e financeira). E, por último, eu não tinha um referencial. Não tinha um profissional que eu admirasse e pudesse seguir sua carreira como exemplo, eu estava criando tudo do zero, com base no que eu achava interessante. Então, dois grandes desafios foram desenvolver uma metodologia pro meu processo e conseguir precificar de maneira justa.

Lella Sá: Como ficou a questão de grana em meio a incerteza?

Ilana Reznik: O primeiro ano como celebrante e até parte do segundo foram de investimento. Cobrava um valor abaixo do que eu imaginava ser o justo porque queria ter volume, queria me fazer conhecida, entrar no mercado. Então, vivia com o que eu tinha juntado nos anos como redatora e nos mil freelas que eu já tinha feito. A sorte é que eu não precisei de investimento financeiro pra abrir esse novo negócio. Meu site foi totalmente feito por pessoas queridas, de graça. Não precisei investir em máquina, produto, curso, nada. Era só o meu tempo e a minha dedicação. Quer dizer, eu não estava ganhando muito, mas também não estava tendo muitos gastos.

Lella Sá: Qual futuro você está ajudando a criar?

Ilana Reznik: Eu sou uma pessoa que acredita no amor como filosofia de vida, como movimento, como parte fundamental de quem a gente deve ser. Não acredito em nenhuma revolução que não venha pelo amor. Como celebrante de casamentos, estou constantemente envolvida no tema, nessa atmosfera amorosa, sendo um canal de amor e afeto, conduzindo uma cerimônia que reflita a história e a identidade dos casais, num dia absolutamente feliz pra eles. Não gosto quando as pessoas fazem as coisas no automático, quando apenas reproduzem determinados comportamentos sem pensar se aquilo faz ou não sentido pra elas. Então, ajudo a criar uma cerimônia que realmente faça sentido. Inclusive, no processo de produção da cerimônia, faço alguns encontros com os casais e proponho reflexões sobre estar junto, sobre relacionar-se, sobre amor, família, casamento, pra que eles entrem inteiros nessa jornada - que é o casamento - conscientes dela. Uma vez eu li uma frase do Zygmunt Bauman que diz que amar é contribuir para o mundo. Gosto de fazer os casais pensarem em qual é a sua contribuição. E penso, diariamente, na minha.

Lella Sá: Que dica(s) você daria para quem quer ter um Trabalho com Significado?

Ilana Reznik: Sinto que uma boa dica é olhar com carinho pra nossa própria linha do tempo. Se pensarmos em quem a gente queria ser quando crescesse, quando tínhamos 8 anos, teremos boas pistas do que nós fará felizes hoje. Devemos olhar com carinho pras nossas aptidões, pros nossos desejos e olhar com compaixão pros nossos medos e limitações. Está tudo na nossa linha do tempo, na nossa história. Pensando no meu caso: eu sempre gostei de escrever e, mais do que isso, de comover as pessoas com o que eu escrevia. Sempre vi a possibilidade criativa como um estímulo, eu não conseguiria trabalhar com algo que não demandasse criatividade. E sempre tive o amor e os relacionamentos (de qualquer natureza ) como objetos centrais das minhas reflexões e dos meus textos. Não faz sentido eu ser celebrante de casamentos? Acho que faz. Sinto que faz. O que mais não pode estar escondido (ou nem tão escondido assim) na nossa própria trajetória?

E confiar, sempre.

Essa é uma entrevista do Projeto "Fiz a Travessia", uma série de entrevistas para inspirar e incentivar pessoas a fazerem uma transição para serem mais felizes, satisfeitas e realizadas no Trabalho e na Vida. 

Se você quer fazer a sua transição para um Trabalho com Significado, faça parte do Programa Travessia.

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