Abuso de Poder Econômico

Imagem da Pexels.com

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Senti-me abusada recentemente pelo Bradesco e essa situação está me servindo de muitos aprendizados. O banco fez a renovação de alguns títulos de capitalização de forma indevida sem a minha autorização, sem a minha assinatura. 

Um belo dia recebi uma ligação  da minha gerente do banco. Ela me avisou que os  meus títulos de capitalização venceram e me perguntou se eu queria renovar. Eu disse pra ela  me mandar o contrato que eu iria pensar a respeito. Depois me dei conta que além de querer usar aquele dinheiro para outra coisa, tinha caído numa furada quando aceitei esse investimento no passado e, portanto, não iria renovar. 

Quando cheguei na minha agência para avisar que eu não iria assinar o contrato, a minha gerente disse que ele já havia sido renovado. 

O meu primeiro sentimento foi de estranhamento. Ela disse que era fácil de refazer. Era só eu pedir o resgate via fone fácil já que tinha o direito de fazer o resgate antes de 60 dias de renovação sem cobrar taxas.

Foi aqui que começou o efeito "batata quente" que muitos clientes sofrem. Um departamento culpando o outro.

Pedi o resgate mas não foi possível, afinal foi renovado a pouquíssimo tempo e pediram que eu voltasse a falar com a gerente. Num telefonema com ela, fui informada que não estava nas sua mãos a resolução do problema e sim do departamento de capitalização. 

As palavras dela foram, literalmente, "vou ver se alguém aqui da agência conhece alguém lá do departamento para acelerar o processo, mas não garanto." 

Depois que eu insisti no fato de que eu não havia assinado nada e que eu tinha o direito de ter o meu dinheiro na conta imediatamente, ela pediu que eu escrevesse uma carta a próprio punho pedindo o resgate.

Mesmo achando um absurdo, preferi redigir a carta para receber a quantia logo. Entreguei para a gerente em mãos e depois de ler, sua reação para a frase "não assinei nenhum documento permitindo a renovação" foi "falando isso você me ferra. Só escreve que você não permitiu a renovação." 

Mesmo pasma que ela não admitiu o erro e muito menos se responsabilizou por ele, reescrevi a carta e coloquei o prazo do dia 31/10 para o dinheiro cair na minha conta. Achei que dei até um prazo bastante amigo, visto que nem era para o dinheiro ter saído da minha conta. Tinham 12 dias para resolver o absurdo. Mesmo assim, o meu dinheiro não me foi devolvido.

Resumindo, o drama começou no dia 17/09 quando o dinheiro foi retirado da  minha conta e até hoje não voltou o que é meu por direito. 

Fiquei bem calma e busquei tratar isso de forma civilizada com a gerente. Mas a cada ação irresponsável, eu me sentia mais abusada. Eu não aguentei mais ser tratada como tola. Os envolvidos estavam se colocando como se estivessem me fazendo um favor ao devolver o meu dinheiro mesmo sabendo que eu não tinha assinado nada autorizando a renovação. 

Recebi comentários de duas pessoas da agência que achei um tanto quanto agressivos:

"Mas você precisa desse dinheiro para  fazer qual tipo de pagamento?" - é meu dinheiro e quem decide o que vou fazer com ele sou eu. Não o banco.

"É caso de vida ou morte? Não tem como esperar voltar na sua conta? Já foi feito a solicitação no departamento de capitalização. Agora é aguardar até 15 dias." - quem decide para que e o nível de urgência do uso do meu dinheiro sou eu. Não o banco.   

"Você pode fazer um crédito pessoal e nós reembolsamos os juros pra você." - sempre foi contra meus princípios pegar dinheiro emprestado e não é agora, por erro do banco, que vou fazer isso. Quem decide o que eu vou fazer, ou não, sou eu. Não eles.

Eu estou com raiva e angustiada porque eu fui enganada em vários níveis, porém essa situação me trouxe muitos aprendizados:

Fui uma das centenas de milhares de pessoas que tercerizou a responsabilidade de onde investem seu dinheiro e fui vítima do modelo de remuneração e metas dos gerentes de banco, aplicadas e apoiadas pelos grandes dirigentes e acionistas desses mesmos bancos.

Caí na armadilha dos títulos de capitalização Pé Quente do Bradesco, uma forma civilizada de roubar dinheiro dos leigos.

Quando eu tinha 18 anos, recém chegada no Brasil, morando sozinha,  fui ao banco e pedi ajuda. Coloquei-me com toda a minha ingenuidade para a gerente. Queria começar a investir em algo e ter um retorno depois de vários anos. Sabe o que ela me apresentou? Pé Quente Bradesco. Só posso imaginar quantas pessoas e famílias são levadas a esse tipo de produto, com retornos muito abaixo do mercado, por profissionais inescrupulosos guiados por incentivos de seus chefes, para empurrar produtos ruins e que exploram os desinformados... Até quando isso ainda vai poder existir?

Aprendizado 

Estou revendo minhas escolhas e avaliando para quem peço ajuda. Quero pessoas próximas que desejam genuinamente estar a serviço, sem outras agendas e sem metas a cumprir. Quero conviver com pessoas mais verdadeiras e ser tratada menos como número. 

Passei a querer saber onde o banco investe meu dinheiro. Então estou pesquisando mais sobre formas de investimentos para escolher opções que além de me darem um retorno, podem usar o dinheiro para construir um mundo no qual eu julgo ser melhor. 

Muitas vezes acabamos como vítima de metas dos gerentes dos bancos e de outras corporações que não fazem isso por mal... "Só estão fazendo o seu trabalho". A consciência deles fica limpa, porque eles estão fazendo o que foi pedido pelo chefe, mas não levam em conta os absurdos aos quais se submetem. É isso que mais me indignou.  

Qual é o custo de atingir metas apenas pelo status e pelo dinheiro? Será que vale oferecer produtos ou serviços que, no fundo, não beneficiam nem o indivíduo nem a sociedade?

É ético tirar vantagem de indivíduos e extorquir a sociedade para se beneficiar? 

A mentalidade nesse tipo de ação é egoísmo. "Quem importa aqui sou eu. Você se vira. Não é problema meu."

A falta de responsabilidade no processo todo me mostrou o quanto eu valorizo quando as pessoas se colocam como responsáveis. A falta de empoderamento, a síndrome da "departamentalização" joga responsabilidade para o outro como batata quente. 

Qual é o mundo que vamos criar com esse tipo de atitude?

Quero fazer escolhas por mais cuidado, honestidade e transparência onde as ações das pessoas sejam muito mais do que relações comerciais.

A forma que o banco me impactou foi muito negativa.

Porém enxergo que há duas relações que quero tratar:

A minha relação institucional com o banco e a minha relação, de ser humano para ser humano, com as duas pessoas que intermediaram essa relação institucional.

Como separar isso?

Diante da situação que eu me encontro, gostaria de provocar atitudes e sentimentos positivos para que todos se beneficiassem. Qual é a ação que vocês fariam para que o sistema todo ganhasse?

Peço ajuda porque eu realmente não sei o que vai gerar mais impacto positivo. Como eu deveria proceder? Alguém também já passou por algo semelhante e resolveu sem apelar e ficar no mesmo nível dos ofensores?''